sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sobre o Livro #3 - Um Outro Amor




Se eu caísse agora e tivesse poucos segundos, talvez uns minutos para pensar antes que tudo acabasse, eu pensaria justamente o oposto. Que não conquistei nada, que não vi nada, que não vivi nada. Eu quero viver. Mas então por que não vivo? Por que, quando estou a bordo de um avião ou no interior de um carro e imagino que posso cair ou bater, o meu pensamento é que não importaria muito? Que não faria muita diferença? Que para mim daria na mesma viver ou morrer? Porque esse é o meu pensamento mais recorrente. A indiferença é um dos sete pecados mortais, e na verdade o maior de todos, porque é o único que atenta contra a vida.

Um Outro Amor é o segundo livro da série Minha Luta do norueguês Karl Ove Knausgard. Nesta série, temos nada mais que a autobiografia do autor, contada na forma de um romance, enquadrando o livro no gênero ficção autobiográfica. São sete livros no total e cada um deles aborda de forma mais contundente algum aspecto da vida de Karl Ove.
No primeiro, o título dá a dica, A Morte do Pai enfoca tanto na relação nada amigável com o pai quanto nos sentimentos conflituosos do autor que emergem com seu falecimento. Já Um Outro Amor conta a história de sua própria família, a relação com a esposa Linda e o nascimento dos seus três filhos, especialmente a primogênita Vanja, além de Heidi e John. Pra mim, os capítulos que narram a gravidez, o nascimento emocionante de Vanja e a beleza da descoberta de si enquanto pai são os mais bonitos do livro.
Por falar na estrutura, reconheço que esses livros talvez não sejam convidativos ao grande público porque Karl Ove descreve sua própria experiência de vida de forma não tão surpreendente assim. Ou seja, temos parágrafos e parágrafos de uma simples ida ao supermercado, detalhes banais de uma festa de aniversário, a trivialidade de uma ida ao bar com um amigo querido. São detalhes que me fez sentir mais próxima do autor, você se reconhece nessas banalidades porque é a vida como ela é, não a ilusão de uma vida incrível de acontecimentos de tirar o fôlego. Se é isso que você procura, nem abra os livros de Karl Ove.
Talvez de forma paradoxal, a banalidade da vida é que torna o livro único, é para poucos a capacidade de narrar de forma tão envolvente uma ida a um café para fumar e ler um jornal, Karl Ove consegue fazer o leitor sentir-se impelido a descobrir mais sobre sua história, mesmo que seja a história de um escritor pai de família como tantos outros. Outro ponto interessante foi descobrir mais sobre a Noruega e Suécia, apesar dele ter nascido no primeiro país, após o término do primeiro casamento, o autor muda-se para Estocolmo para "recomeçar a vida" e é nesta cidade que passeamos a maior parte do livro, interessante conhecer hábitos e a vida nesse país.
Apesar de, em alguns momentos o livro ter essa capacidade mágica de querer acabá-lo de uma vez só, em outros as suas divagações pediam por uma pausa, quem leu o primeiro livro irá notar que suas elucubrações sobre a vida, o universo e tudo o mais são uma constante maior em Um Outro Amor, tornando-o bem maior que o primeiro. Recomendadíssimo!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Lista #2 - Projeto "Tirando a Poeira" (Atualização)

Apesar de ter acumulado uma quantidade absurda de poeiras neste pequeno blog, eu não o abandonei de todo. Mantive firme e forte o meu único projeto literário do ano e daqueles 20 livros da lista, eu consegui ler 18. São eles:

1. O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago
2. O Cão dos Baskervilles - Arthur Conan Doyle
3. As Horas Nuas - Lygia Fagundes Telles
4. Sobre a Beleza - Zadie Smith
5. O Estrangeiro - Albert Camus
6. A Obscena Senhora D - Hilda Hilst
7. Textos para Nada - Samuel Beckett
8. A desumanização - Valter Hugo Mãe
9. O Pintassilgo - Donna Tartt
10. Garota Exemplar - Gillian Flynn
11. Laranja Mecânica - Anthony Burgess
12. O Talentoso Ripley - Patricia Highsmith
13. O Sol é para Todos - Harper Lee
14. Mrs. Dalloway - Virginia Woolf
15. Se um viajante numa noite de inverno - Italo Calvino
16. Persuasão - Jane Austen
17. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres - Clarice Lispector
18. A Mulher Desiludida - Simone de Beauvoir

Para não dizer que não falei dos livros, segue um brevíssimo comentário dos meus livros preferidos até o momento.


  • Sobre a Beleza - Zadie Smith

Eu já havia ficado encantada com Caçador de Autógrafos ano passado, mas Sobre a Beleza coloca o romance anterior da inglesa Zadie Smith em outro nível, de tão superior. Este livro, publicado em 2005 com tradução de Daniel Galera, conta a história de uma família, ou melhor, duas, que enfrentam uma intensa querela intelectual, a de Howard Belsey é liberal, enquanto a de Monty Kipps é ultraconservadora. Tudo caminha bem, até que o filho de Belsey apaixona-se pela filha de Kipps e, posteriormente, Monty é convidado a dar aulas na mesma universidade de Belsey, nos EUA, até então Monty e família viviam no Reino Unido. O romance é recheado de reviravoltas, hipocrisias, ótimos diálogos, um retrato importante e ao mesmo tempo um pouco desolador da sociedade contemporânea. Fiquei mais interessada em acompanhar a bibliografia da autora, falta ler NW e Dentes Brancos.




  • A desumanização - Valter Hugo Mãe
Quer um livro triste? Daqueles de abraçar o travesseiro quando termina? Mas que ao mesmo tempo, te deixa com certa alegria por ter lido uma história tão tristemente bela? Este é o escolhido. A desumanização se passa na Islândia, um dos países que a meu ver cabe muito bem a descrição de belo, mas triste, melancólico. A história é o processo de luto atravessado por uma menina que acabara de perder a irmã gêmea, entre uma relação conflituosa com a mãe - que a acusa pela morte da irmã -, terna com o pai e a descoberta de uma amizade inesperada, ela vai aos poucos dando um lugar para esta perda de um outro idêntico a si próprio. Valter hugo mãe é poesia pura, fiquei encantada, quero ler todos os outros do autor. 

"Andei comigo as coisas nenhumas que me pertenciam. Levei a camisola de Sigridur. Olhei para a casa como se a deixasse absolutamente vazia. Senti que a Sigridur era o passado. Estava posta no passado igual a ter-me abandonado. Afinal, pensei eu, a morte não tem sequer inteligência suficiente para te deixar falar-me. A morte é egoísta. Talvez nem te deixe passar perto do menino. Talvez não reconheça direito a nada. É a supressão de toda a dignidade."





  • O Pintassilgo - Donna Tartt
Uma das emoções mais avassaladoras causada por um livro é o apaixonamento arrebatador, daqueles de sentir amor e ódio na mesma proporção. Dito isso, confesso, eu me apaixonei pelo O Pintassilgo e suas mais de 700 páginas. O personagem-título é uma obra de arte, furtada pelo jovem Theo de dentro dos escombros de uma explosão em um museu nos EUA, fruto de um ataque terrorista. Theo estava dentro do museu no momento da explosão, junto de sua mãe, que acaba falecendo no trágico acidente. É a partir desta perda que a história se desenvolve, mais um livro cujo tema da morte está presente, especialmente na primeira parte, quando Theo passa a morar com a família de um amigo, tendo em vista que o pai o abandonara anos atrás e ele basicamente, não tem mais ninguém no mundo. A história vai dos 13 aos 27 anos da vida de Theo e sua obra de arte, por isso acompanhamos todo o percurso de seu amadurecimento, mas não necessariamente crescimento, uma vez que o Theo adulto não é um personagem tão digno de amor quanto o Theo criança, mas nada mais verossímil que um adulto cheio de máculas. 



  • Laranja Mecânica - Anthony Burgess
É lugar comum falar deste como um dos clássicos da ficção científica, não é por menos, Burgess conta uma história original e cheio de elementos interessantes, como o vocabulário da gangue de Alex. Mas vamos por partes. O livro é narrado pela perspectiva do jovem Alex, um típico adolescente inglês do futuro - que tipo de futuro, isso não fica muito claro -, filho único, mora com pais amorosos, trabalhadores e dedicados. Entretanto, Alex é o exato oposto do ideal, é o líder de uma gangue adolescente que acomete os mais bárbaros crimes pela madrugada adentro, saques a lojas, espancamentos de mendigos e transeuntes, estupros, assaltos a casas, etc. Uma característica peculiar desta gangue, como já citei, é o vocabulário chamado de Nadsat, encharcado de gírias, tantas, que demora até pegar o ritmo do livro, já que inicialmente não se entende nada do que está escrito (um salve para o glossário ao final do livro inserido pela editora Aleph). Tudo vai "bem", até que Alex é pego pela polícia em uma de suas incursões e o livro começa a ficar mais interessante, podemos ter uma visão mais acurada da sociedade retratada no livro, completamente infestada por essas gangues de ruas e tentando a todo custo, das formas as mais abjetas, "limpar" e "salvar" esta sociedade de seus jovens delinquentes. Neste sentido, Alex torna-se o bode expiatório de um dos experimentos utilizados para "salvar sua alma". Um aperitivo da primeira página da história, quando você acha que se enganou e pegou um livro escrito em outra língua:

"Bom, o que vendiam ali era leite-com-tudo-e-mais-alguma-coisa. Eles não tinham autorização para vender álcool, mas ainda não havia leis contra prodar algumas das novas veshkas que costumavam colocar no bom e velho moloko, então podia pitar com velocet, sintemesc, drencrom ou alguma outra veshka que lhe daria uns belos de uns quinze minutos muito horrorshow só ali, admirando Bog e Todos os Seus Anjos e Santos no seu sapato esquerdo com luzes espocando por cima da sua mosga."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Listas #1 - Melhores livros de 2015

Olá!

Com a proximidade do final do ano, além dos projetos, é o momento de relembrar as leituras realizadas deste ano, então separei as minhas seis melhores leituras. Fazendo um balanço geral, eu acho que meu desempenho de leituras deste ano foi de regular a bom, eu li até o momento, 36 livros e 8 HQs (graphic novels e mangás), com uma média de 3 livros por mês. Acho que foi relativamente pouco, vou tentar aumentar minha meta pro próximo ano.

Então, vamos ao top 6!


*Os livros não estão listados hierarquicamente, do pior para o melhor.

1) A Coisa - Stephen King
O meu calhamaço do ano foi também uma das minha melhores leituras, no kindle, eram cerca de 2000 páginas, mas que devorei em menos de um mês, de tão envolvente. Conta a história da cidade fictícia de Derry e de seis moradores, únicas pessoas que conseguem entrar em contato com o que há de mais sombrio nesta cidade, A Coisa, personificada como um palhaço aterrorizante. Esses seis moradores, crianças no início da história, unem-se e tornam-se amigos pelo medo, inicialmente de outras crianças da cidade que praticam bullying com eles e depois, pelo segredo que os une, de serem os únicos a saberem da existência da Coisa. Além de acompanharmos a histórias dessas crianças por flashbacks, já que nos dias atuais eles já são todos adultos, vemos o reencontro deles, afastados há anos deles mesmos e da cidade natal, mas que mais uma vez unem-se a fim de derrotar de uma vez por todas A Coisa de Derry.

2) As Virgens Suicidas - Jeffrey Eugenides
Conheci esta história primeiramente através do filme de Sofia Coppola, apesar da crítica ter sido muito positiva, não foi um filme que me empolgou, talvez devido as minhas altas expectativas. Deu-se o oposto quanto ao livro, estava na espera de uma história mediana, mas a escrita de Jeffrey Eugenides me encantou do início ao fim. Como no livro anterior, há o enfoque em uma cidade, mas mais na família Lisbon e nas cinco lindas filhas do casal, todas jovens, com idades de um ano de diferença, dos treze aos dezessete anos. Sabemos dessa história pela perspectiva de um grupo de amigos vizinhos de mesma idade, aparentemente eles narram a história já adultos, mas são poucas as indicações nesse sentido, e que eram completamente fissurados pelas meninas, acompanhavam-nas pelos seus binóculos pelas janelas de suas casas, encontravam-se às escondidas para ficarem espiando e especulando sobre suas misteriosas vidas. O fascínio aumenta sobremaneira após o suicídio da mais nova, Cecilia, e em como as outras meninas parecem ter o mesmo propósito, ao mesmo tempo em que são subjugadas por uma mãe intimidadora e super protetora. Este livro levou-me a querer ler mais do autor, a narrativa escrita pela perspectiva dos meninos, com toda adoração e aura de mistério, é cativante.

3) A Redoma de Vidro - Sylvia Plath
Eu tenho dificuldade em saber qual livro, filme, etc eu gosto mais em relação a outro, mas este livro eu não tenho dúvidas de que foi minha melhor leitura do ano e está nos meus preferidos da vida. Depois de terminá-lo, eu ainda reli duas vezes de tão apaixonada que fiquei por Sylvia Plath e Esther Greenwood, a protagonista da história. É um livro autobiográfico, Esther é a personificação das próprias vivências e angústias de Sylvia e foi escrito semanas antes do suicídio desta, talvez por ser tão visceral tenha me encantado tanto. A narradora é a própria Esther, jovem adulta americana da década de 20 que sonha em ser poetisa, mas ao ser recusada em um curso de oficina de ficção e ter ido trabalhar por algum tempo em Nova York, saindo pela primeira vez de sua cidade natal, Boston, começa a se questionar se realmente é boa o bastante para escrever, quiçá viver, e cai numa profunda depressão, indo parar em diferentes instituições psiquiátricas. O sofrimento de Esther também é claramente por se sentir tão diferente de todas as outras jovens de sua idade, em Nova York por exemplo ela sente-se deslocada por não ser tão fútil quanto as colegas e, diferente do sonho da maioria das mulheres de sua época - de sua mãe inclusive - ela não quer casar e nem trabalhar às custas de um homem como datilógrafa, a profissão que sua mãe empurra a ela constantemente, seu sonho é trabalhar por si só, com seu trabalho, escrevendo, ela é o que se pode chamar, de forma bem clichê, uma mulher a frente do seu tempo. Mas é triste e ao mesmo tempo bonito acompanhar o quanto manter-se verdadeiro consigo mesmo, a despeito dos outros, pode ser causa de tanta angústia, tanto quanto da própria autora que, infelizmente, não conseguiu suportar.

4) O Tempo e o Cão - Maria Rita Kehl
Ainda na temática da depressão, este é um livro de não-ficção sobre o tema da psicanalista Maria Rita Kehl, vencedor do prêmio Jabuti de não-ficção. É um livro muito preciso, um estado da arte sobre o tema, escavando como a depressão foi vivenciada ao longo da História, sob que nomes e  quais determinantes históricos a ela esteve ligada, além de tecer um belo panorama contemporâneo sobre as condições de possibilidade para o aparecimento da depressão dos dias atuais, como a vivência de tempo e espaço interferem nas experiências subjetivas, que podem desembocar nos estados depressivos, como esse diagnóstico aparece tanto atualmente, recebendo inclusive a alcunha de "doença do século". Ao final, ela explora como a psicanálise entende a depressão, expondo uma tese pessoal muito pertinente. As referências são várias, Lacan, Winnicott, Walter Benjamim, Marx, Bergson, Baudelaire, é um livro pra ser lido e relido pra quem se interessa pelo tema.

5) A Amiga Genial - Elena Ferrante
Tanto este quanto A Redoma de Vidro, eu havia lido para o clube de leitura leia mulheres do Rio de Janeiro, infelizmente não consegui ir em nenhum dos dois meses, mas ambas foram as minhas melhores leituras do ano, um belo presente. Elena Ferrante é o pseudônimo de uma italiana, mas não se sabe quem é, não dá entrevistas, ninguém nunca a viu, sequer se sabe se é homem ou mulher, sob essa aura de mistério, encarna a tetralogia iniciada pelo livro A Amiga Genial sobre uma amizade permeada de muito amor e ódio entre a narradora Elena e sua amiga Lila, moradoras de uma vizinhança muito pobre em Nápoles na década de 50. Elena conhece-a desde muito pequena, na escola quando se surpreende com a inteligência "natural" da amiga, colocando-a numa aura de magnitude que a acompanhará por toda a vida, sente-se diminuída por quanto ela, Elena acha que precisa esforçar-se sobremaneira para sobressair-se na escola (e depois, na vida), enquanto que para Lila parece ser inteligente sem grandes esforços. Ao longo da história, em pequenos apontamentos fica claro o quanto esta aura é muito mais produto das fantasias de insegurança de Elena do que de uma genialidade de Lila. Este primeiro livro vai desde a infância das duas até o casamento de uma delas, terminando com aquele gancho que nos impele a querer continuar para o próximo livro, é uma história envolvente e verdadeira sobre as paixões que envolvem uma grande amizade.

6) A Morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstói
Minha segunda experiência com Tolstói, um livro pequeno, mas incrível, os autores russos são realmente invejáveis em sua escrita. Narra os três dias que antecederam a morte de Ivan Ilitch, onde ele faz uma verdadeira retrospectiva de toda sua vida, seu relacionamento com amigos, mulher e filhos, seus arrependimentos e conquistas, põe-se a elaborar toda sua vida, desde a infância, juventude, até a velhice. Estar confrontando a morte tão de perto também é tema de suas divagações e reflexões, vemos um homem moribundo temendo aquilo que não pode entender, tentando buscar explicações para o depois de sua morte. É um livro breve, mas muito rico, depois deste e de Anna Karenina, impossível não querer ler tudo de Tolstói.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Sobre o Livro #2 - As Brumas de Avalon



[CONTÉM SPOILERS]

Olá!

Finalmente, terminei a leitura dos quatro volumes de As Brumas de Avalon, não consegui manter os diários de leitura, então achei melhor fazer um post só sobre todos os livros. Já comentei um pouco sobre o primeiro livro, Senhora da Magia, mas agora pretendo falar da história como uma só, não vou subdividir onde acontece o quê, pra dar mais dinamismo e também porque a história é pra ser lida assim mesmo, de uma vez só, como um único livro, há bastante encadeamento entre eles.

Como já havia dito, esses livros contam a perspectiva feminina do mito do rei Arthur, eu digo mito pois não se sabe até hoje se ele realmente existiu, ele teria vivido em torno do século V, mas sua história está cercada por misticismo, acontecimentos e personagens fanstasiosos, sendo objeto de várias versões. Esta de Marion Zimmer Bradley segue o contra-fluxo dessas versões ao focar nas mulheres, principalmente na meia-irmã de Arthur, Morgana, comumente retratada como uma mulher maquiavélica e pérfida, mas aqui há uma versão mais humana, tornando-se uma das minhas personagens mulheres preferidas da literatura.

Os livros iniciam-se desde antes do nascimento do futuro rei e do casamento de seus pais, Igraine e Uther, acompanhamos uma Morgana ainda recém-nascida, fruto da união do primeiro casamento de Igraine com o duque Gorlois. Com a ascensão de Uther ao trono, arrebatada pela paixão, Igraine, antes uma mãe devotada, passa a investir completamente em seu casamento, sobrepujando-o à maternidade, o que não é sem sofrimento para a pequena Morgana, que se vê obrigada a ser ela mesma mãe de seu irmão Arthur. Anos depois, Viviane leva a já crescida Morgana para tornar-se sacerdotisa de Avalon, e no futuro substituir Viviane no cargo de Grande Sacerdotisa.

Entretanto, após o controverso Grande Casamento, Morgana abandona Avalon, grávida e completamente amargurada em relação ao seu destino, há pela primeira vez um profundo desgosto em servir sua vida a Deusa, sente-se manipulada por Ela e, em consequência, por Viviane, que seria a representação da Deusa na Terra, o instrumento através do qual Seus propósitos são executados. Assim, Morgana abandona o posto de sacerdotisa e refugia-se na corte de sua tia Morgause, casada com Lot de Orkney, vale lembrar que este rei havia ambicionado ser o Grande Rei, sendo preterido a Uther, por isso tanto ele quanto sua gananciosa esposa sonham em colocar no trono um de seus filhos. Na corte de Morgause, Morgana dá a luz ao seu filho Mordred, mas o deixa para ser criado pela tia.

Paralelo a tudo isto, o rei Arthur ascende ao trono após a morte do pai e casa-se com a cristã fervorosa Guinevere, para mim os capítulos protagonizados por ela são os mais enfadonhos, sua temeridade inquestionável ao Cristo, sua devoção e fanatismo pra mim são muito cansativos, principalmente porque há muitas contradições e conflitos internos entre seus desejos mais íntimos e a fé cristã. Seu maior conflito é o fato de não ser apaixonada por seu marido, mas pelo seu primo e amigo mais íntimo, Lancelote, esta paixão é mote de toda a angústia e culpa de Guinevere. Além disso, a rainha não consegue realizar o que seria sua única função enquanto mulher de um rei: dar-lhe filhos, ela então associa sua esterilidade com o pecado de desejar outro homem, que não seu marido, tornando-o como uma penitência pelos seus pecados.

O contraponto entre Guinevere e Morgana e outras mulheres de Avalon é o ponto mais interessante dos livros para mim. Um dos grandes fios condutores das histórias é a religião, de um lado, o cristianismo e de outro o paganismo, e ambas as crenças tem uma visão completamente oposta em relação ao papel da mulher, pela perspectiva de Guinevere, o cristianismo tem uma visão da mulher como abjeta, fonte de todo o pecado do mundo, desde Eva, ela deve ser submissa, colocar-se sempre atrás dos homens e sentir-se culpada pelo simples fato de ser mulher. Ao contrário, em Morgana, vemos a exaltação do feminino, a mulher como aquela que dá a vida, não é a toa que em Avalon se cultua a Deusa e não o Deus, vê-se isso em todas as atitudes de Morgana, mesmo quando se afasta de Avalon, ela ainda mantém uma postura de não submissão e de autoridade, invejada por Guinevere, diga-se de passagem.

Os acontecimentos vindouros são voltados para as façanhas do rei Arthur, como ele conseguiu juntar em torno de si os cavaleiros da Távola Redonda e expulsar os saxões da Bretanha, através de sua espada Excalibur, encantada com a magia de Avalon para que ele nunca perecesse enquanto a portasse. Esta espada é o símbolo do juramento de Arthur que, em troca de sua magia, promete defender o paganismo e as religiões célticas junto ao cristianismo. Esta promessa é quebrada, com insistência de Guinevere, e o rei Arthur depõe a bandeira usada pelo seu pai, com os Dragões, símbolo de todas as religiões pagãs para usar somente o símbolo da cruz. Tal perjuro é condenado, obviamente por Viviane e também por Morgana que toma essa traição para si e passa a tentar, principalmente após a morte de Viviane, vingar tal perfídia em nome de Avalon.

Apesar de aproximar-se mais de Avalon, ainda assim Morgana não assume o posto de Grande Sacerdotisa após a morte de Viviane, ela casa-se com o velho Uriens da Gales do Norte, e toma forças para vingar Avalon após envolver-se amorosamente com o enteado, filho de Uriens, Acolon. Mas suas tentativas de fazer Arthur cair não funcionam e ela mais uma vez depara-se com muita dor e sofrimento durante esta jornada, permeada de muito ódio aos cristãos e de muita amargura por ver Avalon ir aos poucos sendo consumida pelas brumas e também culpa, pois acredita que ao abandonar Avalon grávida, ela de certa forma, deixou que o destino se configurasse desta forma. 

Aqui é o ponto onde, ao mesmo tempo que há disparidades, também tem alguma convergência entre Morgana e Guinevere, ambas são movidas pela sua fé, a seu modo e sentem culpa por acharem que não estão cumprindo a vontade de seus deuses por mais que suas vidas inteiras tenham sido dedicadas a manter viva suas crenças. Portanto, apesar de tão diferentes entre si, as diferentes narradoras desta história, Igraine, Viviane, Morgause, Morgana, Guinevere, Nimue, Niniane, todas tem em comum esta devoção incontestável por seus deuses, uma relação de amor e ódio profundos pela sua religião, na tentativa de conciliar seus desígnios indecifráveis com seus próprios desejos e paixões. Enfim, são personagens humanas e isso que me faz gostar e sentir tanto carinho por essa saga.

Espero que tenham gostado e até a próxima!



domingo, 29 de novembro de 2015

Diário de Leitura #2 - As Brumas de Avalon

Olá!

Atualizando meu diário de leituras, ao contrário do que havia me proposto, não terminei A Senhora da Magia ontem, mas hoje de manhã. Ontem, parei na página 224, faltavam somente 24 páginas para o fim, mas o sono me pegou antes. Até onde havia lido, Morgana se tornara a personagem central do livro, acompanhamos desde sua chegada a Avalon até quando se tornara sacerdotisa e a maior parte do livro estava voltada para a perspectiva dos acontecimentos a sua volta, pelo que me lembro, será assim a partir de agora nos próximos três livros.

Conhecemos mais sobre a rotina de Avalon, seus rituais, ensinamentos, encantamentos, Mistérios e Visões. Morgana narra seu encontro com o primo Lancelote (filho de Viviane) e em como ele se torna sua primeira paixão e seu controverso Grande Casamento com o Gamo Rei, pra quem ela deu sua virgindade em nome da Deusa. Nesta parte do livro, ela também reencontra com seu irmão Artur, agora coroado Rei após a morte de Uther, e nas últimas 24 páginas do livro, com sua tia Morgause, casada com Lot de Orkney, e com sua mãe Igraine, agora descrita como uma mulher indiferente aos seus filhos. 

Nesta parte, é narrada o relacionamento de amor e ódio entre Morgana e Viviane, que a considera sua filha e como a pessoa mais importante de sua vida, mas assim como Igraine nos contava no início da história, Morgana compartilha da ideia de que sua tia é uma mulher controladora que utiliza o argumento de ser o instrumento da vontade da Deusa para fazer o que bem lhe aprouver. Por conta disso, por sentir-se manipulada em decorrência de um acontecimento do Grande Casamento, no final do livro vemos a partida de Morgana de Avalon para a corte de sua tia Morgause, declinando definitivamente da condição da sacerdotisa e de no futuro ser a Grande Sacerdotisa, sucedendo a Viviane, como esta havia determinado.

Agora, a meta do dia é ler no mínimo 78 páginas do segundo livro, A Grande Rainha, vamos lá e até a próxima!

Livro: As Brumas de Avalon (Livro 1 - A Senhora da Magia)
Autora: Marion Zimmer Bradley
Editora: Imago
Ano: 2008
Páginas: 248